Em nossa sociedade veneramos a tradição, o velho, o antigo. No comércio quem tem mais tradição é visto com bons olhos pelo público consumidor. A tradição é até mesmo usada nas propagandas de marketing para anunciar as vantagens sobre os concorrentes. Nas instituições cristãs acontece algo parecido. Em toda a história do cristianismo sempre surgiram novos movimentos, os tais avivamentos, os anabatistas, os quakers, o metodismo, a própria reforma protestante, os pentecostais e o chamados neopentecostais. Sobre a mira da tradição esses movimentos sofreram vários ataques a “chumbo grosso”, alguns até mesmo foram mortos por se seduzirem por essas novas teologias que afetavam diretamente a tradição. Logo, a tradição, que não é Deus, mas julga o mundo, decidiu através, muitas vezes de concílios, que determinado movimento “X” é heresia e “Y” é o correto. O movimento pentecostal, por exemplo, até hoje é julgado por alguns como uma heresia (não me incluo nessa). Isso acontece desde quando ele surgiu. Alguns atacam dizendo que o movimento surgiu com alta influência dos entusiastas, que o culto pentecostal é bagunça, que não pode falar em línguas em local público e mais um monte de outras coisas que todo mundo sabe ou já até mesmo disse. Por outro lado o movimento pentecostal, através do tempo, conseguiu TRADIÇÃO. O pentecostalismo hoje é o grupo da moda. Todo mundo quer usar um pouco de pentecostalismo. Até mesmo alguns presbiterianos que condenaram o pentecostalismo aderiram à moda. Os Batistas que expulsaram os dois missionários também aderiram. A sociedade Brasileira aderiu esse “novo modismo”, como pode ser logicamente dito, pois os pentecostais são campeões de membros no Brasil. O pentecostalismo atingiu a marca de líder no mercado das instituições religiosas. Agora eles têm tradição, tem dinheiro, tem “influência” na sociedade Brasileira, tem até irmão pentecostal na política, e não são poucos, pode até serem corruptos, podem até usar as suas igrejas como cabo eleitoral, mas os irmãos afirmam, eles são homens de Deus, ALELUIA!!! O pentecostalismo infectou de tal maneira a sociedade Brasileira, que hoje, o estereótipo do evangélico é o criado pelos pentecostais. Os pentecostais ironicamente estão até na TV! O pentecostalismo é o grupo evangélico de maior expressão nesse país. Hoje é a vez dos pentecostais, com sua velha teologia e com sua bagagem chamada tradição, de julgar os novos movimentos. Hoje é possível ao pentecostalismo através de nem tantos concílios, decidir o que é heresia e o que não é. Coisas desse tipo acontecem em cultos da Assembléia de Deus. Como por exemplo, na Igreja Assembléia de Deus em Belo Horizonte. Onde em certo culto, o pastor presidente Anselmo Silvestre leu uma lista de “igrejas esquisitas”. Não deu outra, estava lá o nome: Comunidade Caverna de Adulão. Comunidade na qual faço parte (de coração). A tradição eclesiástica é a justificativa para não respeitar os demais grupos e julgá-los como bons ou ruins. A tradição eclesiástica é a justificativa para tentar derrubar os pequenos grupos. A tradição eclesiástica é sem sombra de dúvidas uma ameaça à unidade da igreja. A tradição eclesiástica é uma ameaça à diversidade. Ser seduzido por velhas teologias é repetir sempre os mesmos discursos, é repetir sempre os mesmo erros. É propagar a tradição das “fogueiras santas”. Literalmente fogueiras, pois muitos queimam os livros dos “hereges”. O perigo de ser seduzido pelas velhas teologias é se contaminar com a corrupção que não é julgada. É ser conveniente com coisas que não concordamos para manter o status-quo denominacional. É ver coisas antes inacreditáveis sendo realizadas “por debaixo dos panos” e ficar calado. É tentar sentir conforto enquanto deveria estar lutando pelo confronto. Longe de eu decidir o que é heresia e o que não é, diferente de Silas Daniel, Anselmo Silvestre e outros, não possuo maturidade suficiente para isso, sou apenas um garoto (como disse Silas Daniel). Sobretudo, a velha teologia está corrompida. A exemplo dos pastores que pensam possuir algum tipo de poder maior e se colocam no topo da hierarquia, criada por eles mesmos; a exemplo dos irmãos pentecostais que antes condenavam o uso de calças pelas mulheres e bermudas aos homens e proibiam seus membros de assistirem a televisão, mas que, hoje, estão lá; que hoje apresentam seus produtos abençoados em grandes redes de televisão. Exemplo de gente que é proibida de pensar, pois devem possuir uma fé implícita, ou seja, acreditar no que a igreja acredita, senão são expulsos, assim como foram os dois missionários da Assembléia, da mesma forma que foram alguns pastores e membros presbiterianos após falarem em línguas estranhas (Gondim que o diga). Ser seduzido por velhas teologias consiste em perpetuar tradições sem sentido, como construir templos, ordenar/consagrar pastores como chefes de rebanho e dizer que tudo que não condiz com a tradição “X” é heresia. Creio que antes deveria apontar os erros sobre a perspectiva do evangelho a luz da igreja primitiva e não da própria tradição que criaram. São tão conservadores e estão tão cheios de orgulho a ponto de dizer: “Somos Cristãos Bíblicos!”. Só consigo pensar em uma simples pergunta mediante tal afirmação: Será? São bíblicos mesmo? Ou foram seduzidos por velhas teologias?

O ser-humano faz algumas perguntas sobre a sua origem, sentido e destino, perguntas que ele é incapaz de respondê-las passivamente e sempre constrói sistemas de explicação da realidade, tais como a religião e a filosofia, para obter respostas adequadas ao seu desespero por carência de certezas.

A religião existe com esse sentido, ela deseja responder essas perguntas, é um sistema de explicação da vida, seu sentido e futuro.

No nosso caso (ocidentais), aceitamos o sistema explicatório da religião “cristã”. Por um certo período de tempo foi a religião inquestionável, considerada a melhor religião, mas hoje não. A idéia que após a morte pode haver vida eterna foi simplesmente "superada" por uma cosmovisão secularista que é o pano de fundo de uma "decadência moral" no nosso período histórico, que alguns, ironicamente, chamam de pós-modernidade.

Hoje, O inferno se tornou o lugar legal e o céu se tornou um lugar chato, sem nada para fazer, sem zuação, bebidas, festas, mulheres nuas e etc. No Céu “não tem nada” do que tanto valorizamos na terra (mesmo que esses “valores” não têm valor algum). Toda essa mudança é acompanhada pela abolição do dogma como absoluto senhor de nossas vidas e pensamentos. Nossas certezas foram arrancadas e agora só nos restaram dúvidas, ou seja, a resposta, cristã, tradicionalmente aceita para nossas perguntas tão pertinentes não são mais aceitas.

A igreja, “a dona da verdade”, capaz de decidir o futuro das pessoas, é uma instituição religiosa. Instituições são mecanismos de poder e manipulação. Elas roubam nossa liberdade, pois, elas promovem o medo quando são questionadas.

A igreja foi capaz de sistematizar o futuro das pessoas dando um sentido de vida que seja coerente com sua origem. De fato, o que pensamos sobre o nosso futuro é o que determina o sentido de vivermos e isso está em completa harmonia com o que pensamos sobre nossa origem. Mas esses fundamentos da religião cristã de nossa cultura ocidental estão sendo removidos e abalados pela já citada “pós-modernidade”. O certo é que sabemos que o nosso futuro é incerto. A história caminha para um buraco negro que nós, seres humanos, não somos capazes de discerni-lo, bom ou ruim.

É como a história de Abraão, um homem que foi enviado a uma terra que não conhecia. Ele foi reconhecido como o Pai da fé, Pai de muitas nações. De sua descendência surgiram as três maiores religiões monoteístas do mundo (judaísmo, islamismo e cristianismo). Tudo isso porque Abraão aceitou ser enviado por Deus, através de uma revelação, a um lugar que ainda não conhecia, ele foi desafiado a dar um salto de fé no escuro mundo do futuro, das coisas possíveis, mas ainda não reais. Ele confiou na palavra que Deus lhe deu, mas observe, essa palavra não foi por meio de um sistema de explicação, foi REVELAÇÃO, veio de Deus.

A revelação é uma antítese a religião. A revelação parte de Deus, ela vem do alto, a religião parte do homem tentando encontrar Deus, na revelação é Deus que vem até ao encontro do homem. A revelação dá-nos um sentido de vida que nos leva a conhecer o futuro e não temê-lo.

A revelação de Deus é em plenitude o homem Jesus, O Cristo. Através do conhecimento dessa revelação somos levados a uma mudança de cosmovisão capaz de transformar nossa vida em sua totalidade. A revelação restaura o homem e leva-o de volta a sua origem. Nosso destino é um pulo no escuro, e um salto de fé em direção ao futuro pode mudar nosso presente e dar-nos sentido pra vida.

Tradição Eclesiástica e Leitura Bíblica. Uma Mistura perigosa.

A leitura bíblica se dá no espaço de um contexto real. Embora cada igreja faça uma “leitura oficial”, todos temos uma bíblia em mãos e compartilhamos da livre vontade de lê-la ou não, podendo assim proferir uma sentença sobre o que realmente e de fato entendemos. Todos os que possuem da livre vontade de lê-la são também intérpretes, sendo intérpretes, mas nem sempre expositores.

Isso se identifica em um problema gerado pela absolutização do discurso referente aos princípios de fé baseado no livro sagrado: bíblia; que na melhor das hipóteses é considerada a palavra de Deus e na pior que somente as contém.

A famosa e controversa reforma protestante deixou um legado contemplativo em alguns aspectos e desprezíveis em outros. O desejo de Lutero em traduzir a bíblia para sua língua é louvável, isso firma coerência com sua forma de pensar sobre o “sacerdócio universal de todos os crentes”.

O problema é identificado no âmbito das idéias que nunca foram praticadas, tais como o sacerdócio de todos os crentes. A idéia de que todos, e não somente os pastores, bispos, denominações, contém capacidade suficiente para interpretar a bíblia é somente mais um ideal protestante cada vez mais impossível de ser contemplado. Uma vez que dentro da igreja ainda existe uma hierarquia, em que somente alguns são portadores da palavra e outros somente ouvintes, praticando assim um monólogo chamado sermão ao auditório, igreja. Somos obrigados a nos calar e concordar com uma interpretação tendenciosa das escrituras para então fazermos parte do grupo, senão estamos fora.

O problema hermenêutico não é o que cada um interpreta, mas o que fazem cada um interpretar.

Existe dentro das denominações cristãs uma forma tendenciosa de ler o texto bíblico, colocando sempre a tradição acima de qualquer outra coisa, abafando o conhecimento de cada um e promovendo assim uma ditadura no âmbito das idéias a serem pensadas sobre o texto sagrado.

A igreja impõe o que o leitor deve pensar. O indivíduo que se propõe a interpretar o texto bíblico depara-se não com o que de fato está escrito, mas sim com o que suas experiências pessoais e seu contexto de vida lhe permitem conhecer e entender. O intérprete é limitado, mas de forma gradual vai rompendo limites e começa, então, enxergar o texto sem os óculos de sua própria tradição, surgindo dúvidas, que comprometem, na maioria dos casos, não o texto bíblico, mas sua própria tradição.

A didática de Jesus não era a de resposta pronta, mas a de perguntas e dúvidas sobre as diversas situações e questionamentos, valorizava mais as dúvidas do que as certezas, produzindo um interesse dentro do indivíduo questionado pela resposta que não estava nEle, mas em si mesmo, ou seja, o indivíduo tinha capacidade suficiente para encontrar a resposta a sua dúvida, não necessitando assim de intermediários como pastores, denominações, tradições e outros. Respostas prontas não geram dúvidas, e certezas não geram interesse. Isso talvez explique o fenômeno da falta de interesse pela leitura bíblica (na maioria dos casos não existe interesse por leitura alguma).

Hoje expressar opiniões é algo tão comum quanto respirar, nesse universo de opiniões somos informados pela igreja que não podemos nos expressar, e nem precisamos praticar tal exercício, pois, eles já ditaram tudo e precisamos somente obedecer cegamente todos os seus expressivos mandamentos, que parecem mais obstáculos do que facilitadores para entrar no Reino de Deus.

A leitura bíblica, tão recomendada, ao meu ver, se tornou um perigo para o evangelho. Uma vez que não lemos e procuramos entender o texto em seu contexto, mas no nosso. Ou seja, acrescentamos ao texto sagrado a nossa tradição, preconceitos e fazemos dele nossos pretextos. A Interpretação do texto sagrado, assim, se torna relativo, dependendo do contexto cultural, histórico e eclesiástico do intérprete. A tradição é um perigo para o cristão, que sem saber, não entende o que lê.

update: 16/01/2010 Hr. 02:17