Dizer adeus à igreja por ela construir um edifício e chamá-lo, equivocadamente, de “templo”, “a casa de Deus”, “local de oração”, “casa de bênção” e etc, impressiona alguns cristãos, mas é a coisa certa a se fazer.

“Enfim, o edifício da igreja nos ensinou de uma maneira errada o significado da igreja e sua finalidade. O edifício é uma negação arquitetural do sacerdócio de todos os crentes. É uma contradição da verdadeira natureza da ekklesia — a qual é uma comunidade contracultural. O edifício impede nosso entendimento e experiência de que a Igreja é o Corpo funcional de Cristo que vive e respira sob sua direta direção sem intermediários”.
Frank Viola

Em um mundo em constantes transformações, todos estão em busca de novos caminhos, a igreja, porém...

Em Atos, do capítulo 10 ao 15, Lucas relata o processo de uma igreja que muda seu rosto, que passa de mera seita do judaísmo e assume sua posição frente aos desafios de sua época. É o relato de uma igreja que vai em frente e aceita desafios novos com discernimento e aproveita novas oportunidades de fazer o Reino de Deus crescer. O modelo no qual fundamentaremos nossa busca é este: a confrontação da igreja primitiva em seu encontro com o outro – os gentios. A confrontação começa no em Atos 10, em que Pedro é dirigido pelo Espírito Santo a testemunhar diante de Cornélio, um gentio que buscava a Deus. Enquanto isso acontecia, Pedro passou por uma mudança inquietadora no modo como via os gentios. A etapa seguinte trouxe mudança em um paradigma corporativo, à medida que grupos de cristãos judeus anônimos passaram a testemunhar a amigos gentios. A conseqüência disso foi o surgimento de uma igreja em Antioquia formada por judeus e gentios que se reuniam (At 11-13): isso precipitou uma crise, e convocou-se um concilio eclesiástico para definir o relacionamento entre os judeus e aqueles Outros. A decisão foi que os gentios não eram Outros, mas cristãos, exatamente como os cristãos judeus.

A igreja no século XXI tem novos desafios, um novo rosto, uma nova identidade, assim como em todos as eras da igreja. A globalização coloca a igreja frente a um desafio parecido com o do primeiro século da igreja: O de Renovação.

“O lado econômico da globalização acentuou as disparidades sociais no mundo. Por um lado, gerou uma riqueza e conforto sem precedente... Por outro, os cenários indicam que uma proporção maior de pessoas está sendo levada a formas extremas de pobreza1”.

Não tenho dados, mas sem muito esforço qualquer um pode notar o enorme enriquecimento de nossas “mega-igrejas”. E qual o significado disso pra população? Como pode haver tanto luxo dentro dos templos se a maioria dos membros são pobres? Creio que esse é o novo caminho da igreja no século XXI: Assumir um novo horizonte para sua ação missionária: a pobreza. Quem é o gentio hoje se não aqueles que são excluídos pela cultura da globalização? Essas mega-igrejas às vezes se comportam como um bizarro grupo guerrilheiro. Imagine um destes grupos, cujo objetivo seja o de agregar as suas fileiras o maior número de cidadãos do país e, depois de muito esforço, consegue agregar 50% da população. Entretanto, como esse era todo seu objetivo, este continuando com a maioria da nação não está no poder. Isto é, tem a maioria das pessoas, mas não mudou nada. A igreja que fecha os olhos para a realidade da pobreza comporta-se assim. Quer agregar a maioria nos templos, mas não influencia na forma de viver das pessoas, e em seu redor cresce a pobreza e a miséria. Essa é uma igreja que não escuta o clamor dos oprimidos, não sente o vento do Espírito e não sente no coração a miséria dos pobres excluídos.

2 Escobar. 2001.

José Miguez Bonino em seu livro intitulado, Rostos Do Protestantismo Latino-Americano, fala sobre quatro rostos do protestantismo na América-Latina: (1a). O Rosto Liberal; (2a). O Rosto Evangélico; (3a). O Rosto Pentecostal e o (4a). “Rosto Étnico”. Mas por fim fica a pergunta: será que são rostos distintos porque se trata de sujeitos diferentes? Ou seriam máscaras de um sujeito único?

O protestantismo na América-latina passou de estrangeiro a étnico em seu livro. O protestantismo é um sinal de contradição irreverente na América-latina. Notemos uma citação de Bonino: “[O Protestantismo é] uma forma do capitalismo norte-americano, elemento conquistador, amigo do capitalista e inimigo do operário, que se propôs, mediante suas escolas, seus templos e seus esportes, a americanização do povo”. Entretanto, podemos notar que as maiorias dos Cristãos são agora pobres. Agora somos amigos dos capitalistas e dos operários.

O protestantismo brasileiro de acordo com a maioria dos Historiadores é formado por três períodos: (1o). Protestantismo de Imigração; (2o). Protestantismo de Missão; (3o). Protestantismo Pentecostal. Gedeon Alencar acrescenta um quarto período: O Protestantismo Gospel. Seguindo o esquema de Alencar acrescento que o protestantismo brasileiro é gospel porque é de assimilação. Nosso período também é marcado por uma igreja institucionalizada em grande crescimento numérico.

A globalização não apresenta nenhuma novidade para a igreja. Primeiro porque ela foi projetada para ser global. Desde a promessa feita a Abraão, de que ele seria uma benção a todas as nações até a visão de João onde todos povos tribos e nações se encontram diante do senhor. Segundo porque a igreja foi a primeira a montar uma rede global (Conselho Mundial de Igrejas). Portanto, sugiro um quinto período no Protestantismo brasileiro: O Protestantismo da Equivocidade. O equívoco da igreja contemporânea é reindivicar para si o nome igreja, e Confundir a instituição com a Eclésia de Cristo.

O Protestantismo Brasileiro, não só o brasileiro, mas no mundo inteiro, é institucional. Essas redes Eclesiásticas, de instituição, evocam para si a tradição como verdadeira forma cristã de viver, promovendo equívocos sobre “verdades bíblicas”, que são na verdade tradição histórica ligada à instituição. Batistas dizem que batizar crianças é errado; Presbiterianos dizem que não. Pentecostais acreditam em um batismo do Espírito Santo, outros, de tradição histórica, acreditam que foi um batismo exclusivo para o primeiro século. Portanto, seguindo Brunner, o equívoco sobre a igreja, é global e institucional, e uma verdadeira cegueira espiritual.

Nem liberal, nem evangélico, nem pentecostal, nem étnico, nem de imigração, nem de missão, nem gospel,nem católico, mas equívoco, oportunista e controverso: Protestantismo Brasileiro, portanto, Latino-Americano. Trata-se de máscaras de um sujeito único: "cristianismo". Que expressam de forma incoerente a verdade do evangelho.